Integrando tecnologias digitais com o modelo SAMR

O modelo SAMR, proposto pelo educador Rubén Puentedura (2008), descreve quatro níveis de uso de tecnologia que se relacionam ao uso pedagógico que professores e alunos fazem de ferramentas tecnológicas e os resultados obtidos na aprendizagem. O nome do modelo é formado pelas iniciais dos quatro níveis descritos por Puentedura, ou seja, substituição, ampliação, modificação e redefinição.

De acordo com o autor, o nível mais baixo de utilização das tecnologias na educação é o nível de substituição, no qual a nova tecnologia é utilizada como substituição direta de uma tecnologia mais antiga, sem que qualquer alteração seja realizada, como por exemplo, a mera substituição de uma máquina de escrever por um processador de texto sem que qualquer funcionalidade adicional da nova tecnologia seja utilizada.

O segundo nível, ampliação, acontece quando a tecnologia atua como uma substituição direta de uma tecnologia mais antiga, porém com a utilização de algumas características e funcionalidades não presentes na tecnologia anterior. No caso do processador de texto, a ampliação se daria na utilização de ferramentas próprias do processador de texto como corretor ortográfico e atalhos de copiar e colar, não presentes na máquina de escrever. Nesse sentido, a tarefa de aprendizagem permanece a mesma, mas a tecnologia oferece algumas melhorias funcionais.

O autor ressalta que, embora importantes enquanto estágios para futuro desenvolvimento, esses dois níveis de utilização de tecnologias trazem pouco impacto para o processo educacional, pois a mera substituição de uma tecnologia por outra mais moderna traz pouca ou nenhuma mudança na aprendizagem dos alunos, proporcionando apenas alguma melhoria no processo educacional.

Mudanças nos processos de ensino-aprendizagem somente acontecem nos dois níveis seguintes, modificação e redefinição, que o autor classifica como transformação. No nível de modificação, a tecnologia permite a reconfiguração significativa de tarefas de aprendizagem, como, por exemplo, quando o processador de texto é utilizado não simplesmente para a escrita de um texto que será impresso e lido por um número limitado de pessoas, mas sim como parte de um processo que incorpora outras ferramentas como mídias sociais, ampliando as possibilidades de leitura e escrita no ciberespaço.

Já no nível de redefinição, a tecnologia permite a criação de tarefas que seriam inconcebíveis sem a sua utilização. Puentedura destaca a possibilidade de criação de diferentes tipos de documentos e textos eletrônicos, tais como digital storytelling (cf. Glossário) que não seriam possíveis sem tecnologias modernas como hipermídia e ferramentas da Web 2.0, por exemplo. Novas possibilidades de autoria e escrita coletiva com pessoas dispersas geograficamente, mas trabalhando simultaneamente em um único documento, se tornam possíveis com ferramentas de computação em nuvem (cf. Glossário) e trabalho colaborativo. Segundo Puentedura, é neste nível que as melhorias na aprendizagem são mais significativas, pois a tecnologia não possibilita apenas uma melhoria no processo de aprendizagem, mas permite uma verdadeira transformação do processo. A figura abaixo ilustra os quatro níveis de utilização das tecnologias na educação descritos pelo autor.

Modelo SAMR (Adaptado de PUENTEDURA, 2008)

Em três vídeos disponíveis na web, (Technology In Education: A Brief Introduction, How to Apply the SAMR Model with Ruben Puentedura, e The Impact of the SAMR Model with Ruben Puentedura), Puentedura apresenta exemplos de aplicações do modelo e o seu impacto na prática docente e nos processos de aprendizagem. O autor complementa que no nível de modificação tarefas comuns são modificadas pelo uso da tecnologia, que permite novas características, tais como possibilitar uma maior audiência transformando a leitura e a escrita em uma atividade social. Neste nível, a tarefa de aprendizagem se desloca da perspectiva individual para a coletiva.

No nível de redefinição, novas tarefas são possíveis a partir do uso da tecnologia. Os alunos passam a assumir mais responsabilidade pela própria aprendizagem em processos de comunicação e colaboração. Segundo o autor, estes dois níveis correspondem àqueles em que há maiores ganhos para os alunos em termos de aprendizagem e possibilidades de utilizar o conhecimento construído. Também nestes níveis se verificam maior variedade nos padrões de interação entre alunos, conteúdo e professor, possibilitando a coaprendizagem e maior gerência sobre a própria aprendizagem.

Podemos entender os quatro níveis de utilização pedagógica da tecnologia propostos por Puentedura como os níveis de utilização e integração de tecnologias digitais que professores e alunos podem experimentar ao longo da sua apropriação tecnológica. No início da integração das tecnologias digitais na prática docente, o professor pode recorrer a um uso mais instrumental da tecnologia, utilizando-a como substituição a tecnologias anteriores, como é o caso das apresentações em Power Point, que substituem o quadro negro e apresentam algumas funcionalidades extras que permitem certa melhoria de aulas expositivas. No entanto, a simples utilização deste recurso tecnológico não traz alterações ou transformações para os processos de ensino-aprendizagem necessários na cibercultura. Após se sentirem mais confortáveis com a utilização de certas tecnologias, tanto professores e alunos, devem procurar se apropriar verdadeiramente dos novos recursos, integrando-os à sua prática de forma a promover transformações nas práticas que impactem a aprendizagem e gerem inovação no campo pedagógico, promovendo a colaboração e interação entre professores e alunos na construção do conhecimento.

Este modelo permite que professores se familiarizem com as tecnologias ao experimentarem os diferentes níveis de apropriação até que sejam capazes de utilizar as tecnologias digitais de forma transformadora, levando à inovação e redefinição das práticas pedagógicas. Assim, diferentes metáforas são utilizadas para ilustrar o modelo SAMR como o possível desenvolvimento de professores no uso da tecnologia, tais como uma escada, na qual se avança os degraus iniciais para chegar a um nível superior, ou uma piscina, na qual, ao se aprender a nadar, se começa pelas partes mais rasas até se sentir segurança para chegar às partes mais fundas. Nessas metáforas, os professores começariam utilizando as TDIC como substituição a tecnologias analógicas até alcançar o nível de redefinição.  Nesse sentido, Duckworth (2015) criou um sketchnote para ilustrar o modelo SAMR na integração da tecnologia por professores, conforme ilustrado abaixo.

Crédito da imagem: Sylvia Duckworth (retirado de LingoMedia)

A figura demonstra como o professor que não faz qualquer uso das TDIC deixa de descobrir e aproveitar as potencialidades oferecidas por elas, se perguntando o que haveria a explorar. O professor que se aventura a descobrir essas potencialidades começa explorando a sua superfície, como no nível de substituição, onde a tecnologia é utilizada como substituição direta e sem mudança funcional. Após se sentir um pouco mais seguro, pode se aventurar dentro do mar, mas ainda na parte rasa, utilizando um snorkel para explorar o que está abaixo da superfície, utilizando a tecnologia para oferecer alguma melhoria funcional às tarefas de aprendizagem.  Ao se sentir ainda mais seguro, pode utilizar um tanque de ar a fim de explorar águas mais profundas, e experimentar um redesenho significativo das atividades mediadas pelas TDIC. Por fim, no nível de redefinição, ao se aventurar em um submarino, é possível conhecer um mundo totalmente inexplorado, antes inimaginável, onde a tecnologia permite a criação de novas atividades.

Portanto, o modelo SMAR pode nos ajudar a compreender como os diferentes usos das tecnologias digitais na educação podem indicar diferentes níveis de apropriação tecnológica. Puentedura ressalta a importância de se sentir confortável com as tecnologias para futuramente desenvolver a prática profissional. O modelo permitiria, assim, um reexame da prática docente para fazer o melhor uso possível da tecnologia.

Referência:

Nota: Este artigo foi adaptado de uma seção de minha tese de doutorado. Se quiser ler o trabalho completo, acesse aqui.

Integrando tecnologias digitais com o modelo SAMR

2 ideias sobre “Integrando tecnologias digitais com o modelo SAMR

  • agosto 29, 2020 em 1:53 am
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    Material didático importantíssimo! Aprendi muito! A transformação chegou até aqui, por meio da modificação e pela redefinição. quanto conteúdo utilizarei pessoalmente e profissionalmente. Parabéns pela organização de todo conteúdo!

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  • setembro 7, 2020 em 5:44 pm
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    É interessante ver descrito como a tecnologia pode ser inserida de forma melhor no processo de ensino aprendizagem

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